Abílio Luiz Ribeiro Alves
Psicanalista. Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise - RJ
Essa é uma pergunta que nos fazemos
quando nos angustiamos com o futuro e a partir do desamparo que experimentamos
como sujeitos. Mais um adolescente morre tão precocemente, seria possível
evitar essa tragédia? Isso jamais se saberá. O que não nos exime de refletir
sobre as razões que levam um jovem a viver os limites do que é suportável.
Haverá hoje uma educação pautada nos
resultados, no desempenho ou na adequação, que subtraia a singularidade de uma
existência? Somos o que desejamos ser ou o que devemos apresentar como sucesso?
Sim, vivemos numa sociedade altamente competitiva que anula a noção de amizade
ou solidariedade. Os treinamentos propostos sob o eufemismo de “recursos
humanos” são na verdade maneiras de estimular fórmulas de sucesso pessoal que
estão longe de levar em conta a diferença e a criatividade.
A criatividade e a emergência de uma
diferença são possibilidades pensadas por Freud como alternativas à sonhada
felicidade. Se não podemos ser felizes integralmente ou definitivamente, talvez
possamos experimentar uma pequena margem de liberdade, quem sabe a de um desejo
próprio e singular? O remédio de Freud contra a neurose não era a felicidade,
mas o humor e a criatividade. Ele era cético quanto a um estado duradouro da
tal felicidade.
JP era um aluno do São Bento como eu
fui. Um colégio rigoroso quanto à disciplina e quanto ao desempenho de cada
aluno. Eu reconheço todos os benefícios que a formação nesta instituição de
ensino me proporcionou. Lembro com muito carinho de colegas e professores. Porém,
é um colégio cujo ensino, em pleno século XXI, está restrito aos meninos.
Talvez uma questão para ser levantada. Se algumas meninas frequentassem o
cotidiano de JP, se ele tivesse um convívio com o jeito feminino de ser, será
que alguma coisa pudesse se dar de outra maneira? Talvez sim, talvez não. Mas é
um fato, o de que, nos dias de hoje, um homem não só se encontre com o sexo
oposto no santo altar. As mulheres estão na cena do mundo e não mais restritas
ao lar. Esta é uma das questões particulares desse colégio que frequentei e
tenho saudades.
Há hoje um ranking de escolas, o São
Bento, tanto quanto algumas outras, é sempre destaque. Eu conheci Homero,
Sófocles, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade nesse colégio. Minha
querida e inesquecível professora Dona Amélia recitava em lágrimas versos de
Drummond. Eu não estudava para o vestibular, estudava para ser gente.
Contudo, há outro aspecto polêmico:
os dogmas religiosos. Devo dizer que os valores cristãos influenciaram minha
educação e o meu pensamento. Não digo o mesmo da Igreja Católica Apostólica
Romana e, muito menos, da Igreja Evangélica cuja institucionalização do
cristianismo, suas práticas e discursos me despertam muitas críticas e
restrições. Mas, Lacan adiantou que a religião triunfará sobre a ciência. Vou
aqui parafraseá-lo quando fala das psicoterapias: “Não é que não ajude, é que
leva ao pior”.
Fazer o bem acima de tudo é o que há
de pior, pois Freud nos fala do impossível desse mandamento. “Quero o teu bem à
imagem do meu”. É isso que queremos para os nossos filhos, que eles sejam
aquilo que não fomos. Em outras palavras, desejamos para nossos filhos os
nossos fracassos, o que não conquistamos.
Não preparamos nossos filhos para
serem sujeitos de um mundo que nos transcenda, queremos que eles realizem
nossas frustrações. Pais que somos no desamparo de nossa existência errante,
descontínua e faltosa. “Senhor, tende piedade de nós”. Seres que dormem sonos
perturbados, enquanto as crianças de nossos sonhos se perdem no desafio de
sobreviver neste mundo cão, neste mundo do sucesso material e do sacrifício da
diferença_ de uma maneira própria de existir.
O que queremos para os nossos filhos
quando os matriculamos numa escola não para aprenderem o novo, a novidade, mas
para serem números de uma estatística bem sucedida? “O Colégio PhD....(Sei lá o
que?) obteve 90% de aprovação no Vestibular”.
É isso que realmente importa? Isso garantirá o futuro de seu filho?
Vamos abrir os olhos, pois crianças e adolescentes caem da janela de seus
próprios sonhos e fantasias.
Responsabilidade, empenho e estudo
são elementos necessários para alcançar metas, objetivos e etc. Alguns conseguem
mais, outros nem tanto. O potencial humano não se mede pela quantidade, mas se apresenta
na forma particular como cada um lida com seus limites e dificuldades. O
mercado é competitivo, mas não podemos negligenciar valores como respeito e
tolerância.
JP se foi precocemente. Poderia ser o
meu filho, o seu filho. Poderia estudar em diversas escolas desse mundo
altamente competitivo que não quer saber da diferença. Quem sabe haverá um
Blade Runner quando nos tornarmos máquinas rebeldes e incapazes de amar?
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