segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Impasses contemporâneos à clínica do mal-estar na cultura



                      Carolina Foglietti
                       Psicanalista. 
Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise - RJ

                                       
                       Essa falta inextirpável, peste que o mundo contemporâneo insiste em querer banir, é o que nos torna humanos, na melhor das hipóteses. Se não inventarmos uma forma de bem dizê-la, advertidos de que esse dizer não nos dirá onde o Bem está, seu inexorável retorno será sempre mais cruel e devastador, revelando a barbárie da des’humanização.


Era uma vez um lugarejo chamado Nowhere, onde a doença e o sofrimento eram considerados graves delitos. Em nome da felicidade e do bem-estar social, nem mesmo o luto, no caso da perda de um ente querido, escapava da punição. Os desafortunados eram afastados da sociedade, à qual só poderiam voltar quando estivessem curados de seus males contagiosos. A um homem acusado de tísica pulmonar, o juiz explica a sentença nos seguintes termos: “O senhor poderá arguir que não é responsável por seu nascimento nem por sua educação. [...] Sua tísica, porém, tenha ou não decorrido de uma falta sua, é uma falta no senhor, sendo meu dever velar para que a república seja protegida de faltas desta natureza” [1].
Descrita em 1872, pelo romancista Samuel Butler, a região do Aqui agora retrata, ainda que de forma burlesca, a paisagem do mundo contemporâneo que, sob a influência do discurso do capitalista cientificizado, elevou a contingência do encontro com a felicidade à condição de ideal supremo. Em Nowhere, tal como se verifica nos dias de hoje, as referências simbólicas, que inscrevem o sujeito numa linhagem histórica relacionada à alteridade e à Lei do pai, são reduzidas ao registro imaginário, narcísico e intrusivo da falta do outro, que deve ser corrigida antes que o pobre desventurado possa voltar a sobreviver no bando da igualdade “feliz”.
Faço esse pequeno preâmbulo a título de gancho para o que me proponho a tratar no presente artigo. Isto é, apontar alguns obstáculos e impasses contemporâneos frente aos quais a Psicanálise deve poder responder, para que a crescente demanda de felicidade, saúde e bem-estar, possa sofrer os efeitos da especificidade de sua ética.
 Vivemos em um mundo cada vez mais acelerado. Atravessados por um sentimento de urgência avassalador, os sujeitos são confrontados diariamente com a exigência de desempenhos insustentáveis. O excesso de competitividade, a obsessão pela saúde perfeita, o culto desmesurado ao sucesso acadêmico, profissional, financeiro e amoroso, acirram a impaciência subjetiva que, diante da falha, clama por rápidas e indolores fórmulas de medicação.
Podemos dizer que, se a modernidade inventou o direito à felicidade, a contemporaneidade, por sua vez, converteu essa prerrogativa numa “felicidade de direito”. Felicidade, saúde e bem-estar são os corolários morais da contemporaneidade. A busca pela felicidade deixou de ser uma questão filosófica, contingente e singular, assumindo o estatuto de uma exigência a ser garantida pelo saber científico e tecnológico. Embora as demandas de saúde e de bem-estar não sejam novas, o que se coloca de forma inédita na atualidade é o lugar ocupado pela prevenção nas políticas públicas e nas práticas da saúde. Um número crescente de aspectos da vida social e particular encontra-se cerceado pela avaliação médica e psicológica. Assim, as práticas que advogam em nome de um Bem supremo, se arvoram do privilégio de poder esclarecer as condições físicas, morais e afetivas que permitiriam alcançar a vida feliz. Os ideais cultuados na atualidade acarretam, portanto, novos e contundentes impasses ao discurso do analista e à ética da Psicanálise.
O discurso científico, cada vez mais diligente em oferecer respostas às incessantes demandas de felicidade e de prazer seguro e imediato, sustenta a credibilidade de uma clínica “monossintomática” que induz a protocolos terapêuticos uniformes e situa os sujeitos em série: hiperativos, anoréxicos, transtornos obsessivos-compulsivos, fóbicos sociais, etc. Em contrapartida, a clínica psicanalítica não se confunde com o “uso de receitas terapêuticas aplicadas a uma zoologia humana. Permanentemente aplicada ao particular, ela lida apenas com as exceções” [2].
No contemporâneo, assistimos também à emergência de uma espécie de clínica do consumo, que se propõe a oferecer tratamentos especializados para modalidades “específicas” de gozo. Regulada por uma sociologia das identificações, ou seja, por determinados tipos de comportamento e práticas sexuais, como, por exemplo, o modo de gozo dos gays, das lésbicas, dos transexuais, etc., além de engendrar uma perniciosa reserva de mercado, contribuindo para a segregação social, essa clínica promove uma profusão de novas identidades efêmeras, que se formam e se dissolvem ao sabor dos investimentos pulsionais.
Paralelamente, surgem práticas de escuta que propõe a reparação do trauma de acordo com a ideologia contemporânea da vítima, “que deve poder falar para adormecer sua dor” [3]. Ainda assim, a premissa fundamental da psicanálise sustenta que há o irreparável, ou seja, aquilo que do sexual não cessa de não se escrever. Com efeito, a situação é mais complexa do que parece. Não basta falar, chorar e se lamentar pelo gozo de seu sintoma, demandando uma solução rápida, sem perdas e sem implicação. Por esta via, o sujeito obterá apenas resultados efêmeros, acompanhados de diagnósticos que, na maioria dos casos, o levarão à apatia da resignação. Como sabemos, é preciso que o sujeito se inclua e se reconheça no sintoma do qual se queixa.
Malgrado as pressões sociais e mercadológicas, a Psicanálise possui o desafio ético de fazer um bom uso da tática sem standards preconizada por Lacan (1958), visando escutar sujeitos ainda distantes do discurso analítico, sem resvalar na obsessão do rendimento terapêutico [4]. Isso porque, além do psicanalista estar advertido de que o sujeito não busca, necessariamente, seu bem, é preciso lembrar que uma psicanálise não visa a remoção do sintoma; pretende, ao contrário, criar as condições de possibilidade para sua transformação. Sabemos que dar a palavra ao sujeito produz alívio em razão da escuta, todavia, o psicanalista pretende fazer mais do que escutar: pretende ouvir e saber do que se trata.
Além disso, é importante enfatizar que a oferta de escuta psicanalítica não exime o sujeito de se confrontar com o impossível de tudo dizer, saber, curar. Por ter acedido à castração e, portanto, também ao desejo, o sujeito carece de um objeto capaz de completá-lo. Fazer o luto do objeto desde sempre perdido é o preço a ser pago em um processo de análise.  Em outras palavras, pagar o preço de se autorizar do próprio sintoma é o que Lacan chamou de ato ético, que implica atingir e suportar essa falta-a-ser, consequência de uma análise.
Ao revelar um conflito interno entre a pulsão do sujeito e seus ideais, a Psicanálise introduz uma ruptura com o arsenal terapêutico que reduz o sintoma a uma pura disfunção. Na cultura se está mal, porque existe um descompasso estrutural entre a palavra e o objeto que buscamos nomear: mal-estar necessário para que a falta, causa do desejo inconsciente,  não venha a faltar.

Referências
[1] BUTLER, S. Erewhon (Nowhere); or Over the Range. British Library: 2006.

[2] COTTET, Serge. Efeitos terapêuticos na clínica psicanalítica contemporânea. In: COELHO DOS SANTOS, Tania. et. al. (Org). Efeitos terapêuticos na psicanálise aplicada. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2005. Tradução por Vera Avellar Ribeiro. p. 11- 40. 

[3] COTTET, Serge. A aceleração dos efeitos terapêuticos em psicanálise. In: COELHO DOS SANTOS, Tania. et. al. (Org). Efeitos terapêuticos na psicanálise aplicada. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2005. Tradução por Vera Avellar Ribeiro. p. 41-51. 

[4] LACAN, Jacques. (1958). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. Escritos. Tradução por Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.



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