Carolina Foglietti
Psicanalista.
Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise - RJ
Essa falta inextirpável, peste que o mundo
contemporâneo insiste em querer banir, é o que nos torna humanos, na melhor das
hipóteses. Se não inventarmos uma forma de bem dizê-la, advertidos de que esse
dizer não nos dirá onde o Bem está, seu inexorável retorno será sempre mais
cruel e devastador, revelando a barbárie da des’humanização.
Era
uma vez um lugarejo chamado Nowhere,
onde a doença e o sofrimento eram considerados graves delitos. Em nome da
felicidade e do bem-estar social, nem mesmo o luto, no caso da perda de um ente
querido, escapava da punição. Os desafortunados eram afastados da sociedade, à
qual só poderiam voltar quando estivessem curados de seus males contagiosos. A
um homem acusado de tísica pulmonar, o juiz explica a sentença nos seguintes
termos: “O senhor poderá arguir que não é
responsável por seu nascimento nem por sua educação. [...] Sua tísica,
porém, tenha ou não decorrido de uma falta sua, é uma falta no senhor, sendo meu dever velar para que a república
seja protegida de faltas desta natureza” [1].
Descrita
em 1872, pelo romancista Samuel Butler, a região do Aqui agora retrata, ainda que de forma burlesca, a paisagem do mundo
contemporâneo que, sob a influência do discurso do capitalista cientificizado,
elevou a contingência do encontro com a felicidade à condição de ideal supremo.
Em Nowhere, tal como se verifica nos
dias de hoje, as referências simbólicas,
que inscrevem o sujeito numa linhagem histórica relacionada à alteridade e à Lei
do pai, são reduzidas ao registro imaginário, narcísico e intrusivo da falta do
outro, que deve ser corrigida antes que o pobre desventurado possa voltar a
sobreviver no bando da igualdade “feliz”.
Faço
esse pequeno preâmbulo a título de gancho para o que me proponho a tratar no
presente artigo. Isto é, apontar alguns obstáculos e impasses contemporâneos
frente aos quais a Psicanálise deve poder responder, para que a crescente
demanda de felicidade, saúde e bem-estar, possa sofrer os efeitos da
especificidade de sua ética.
Vivemos em um mundo cada vez mais acelerado.
Atravessados por um sentimento de urgência avassalador, os sujeitos são
confrontados diariamente com a exigência de desempenhos insustentáveis. O
excesso de competitividade, a obsessão pela saúde perfeita, o culto desmesurado
ao sucesso acadêmico, profissional, financeiro e amoroso, acirram a impaciência
subjetiva que, diante da falha, clama por rápidas e indolores fórmulas de
medicação.
Podemos
dizer que, se a modernidade inventou o direito à felicidade, a
contemporaneidade, por sua vez, converteu essa prerrogativa numa “felicidade de
direito”. Felicidade, saúde e bem-estar são os corolários morais da contemporaneidade.
A busca pela felicidade deixou de ser uma questão filosófica, contingente e
singular, assumindo o estatuto de uma exigência a ser garantida pelo saber
científico e tecnológico. Embora as demandas de saúde e de bem-estar não sejam novas,
o que se coloca de forma inédita na atualidade é o lugar ocupado pela prevenção
nas políticas públicas e nas práticas da saúde. Um número crescente de aspectos
da vida social e particular encontra-se cerceado pela avaliação médica e psicológica.
Assim, as práticas que advogam em nome de um Bem supremo, se arvoram do
privilégio de poder esclarecer as condições físicas, morais e afetivas que
permitiriam alcançar a vida feliz. Os ideais cultuados na atualidade acarretam,
portanto, novos e contundentes impasses ao discurso do analista e à ética da Psicanálise.
O
discurso científico, cada vez mais diligente em oferecer respostas às
incessantes demandas de felicidade e de prazer seguro e imediato, sustenta a
credibilidade de uma clínica “monossintomática” que induz a protocolos
terapêuticos uniformes e situa os sujeitos em série: hiperativos, anoréxicos,
transtornos obsessivos-compulsivos, fóbicos sociais, etc. Em contrapartida, a
clínica psicanalítica não se confunde com o “uso de receitas terapêuticas aplicadas
a uma zoologia humana. Permanentemente aplicada ao particular, ela lida apenas
com as exceções” [2].
No
contemporâneo, assistimos também à emergência de uma espécie de clínica do
consumo, que se propõe a oferecer tratamentos especializados para modalidades
“específicas” de gozo. Regulada por uma sociologia das identificações, ou seja,
por determinados tipos de comportamento e práticas sexuais, como, por exemplo,
o modo de gozo dos gays, das lésbicas, dos transexuais, etc., além de engendrar
uma perniciosa reserva de mercado, contribuindo para a segregação social, essa
clínica promove uma profusão de novas identidades efêmeras, que se formam e se
dissolvem ao sabor dos investimentos pulsionais.
Paralelamente,
surgem práticas de escuta que propõe a reparação do trauma de acordo com a
ideologia contemporânea da vítima, “que deve poder falar para adormecer sua
dor” [3]. Ainda assim, a premissa fundamental da psicanálise sustenta que há o
irreparável, ou seja, aquilo que do sexual não cessa de não se escrever. Com
efeito, a situação é mais complexa do que parece. Não basta falar, chorar e se
lamentar pelo gozo de seu sintoma, demandando uma solução rápida, sem perdas e
sem implicação. Por esta via, o sujeito obterá apenas resultados efêmeros,
acompanhados de diagnósticos que, na maioria dos casos, o levarão à apatia da
resignação. Como sabemos, é preciso que o sujeito se inclua e se reconheça no
sintoma do qual se queixa.
Malgrado
as pressões sociais e mercadológicas, a Psicanálise possui o desafio ético de
fazer um bom uso da tática sem standards preconizada
por Lacan (1958), visando escutar sujeitos ainda distantes do discurso
analítico, sem resvalar na obsessão do rendimento terapêutico [4]. Isso porque,
além do psicanalista estar advertido de que o sujeito não busca,
necessariamente, seu bem, é preciso lembrar que uma psicanálise não visa a
remoção do sintoma; pretende, ao contrário, criar as condições de possibilidade
para sua transformação. Sabemos que dar a palavra ao sujeito produz alívio em
razão da escuta, todavia, o psicanalista pretende fazer mais do que escutar:
pretende ouvir e saber do que se trata.
Além
disso, é importante enfatizar que a oferta de escuta psicanalítica não exime o
sujeito de se confrontar com o impossível de tudo dizer, saber, curar. Por ter
acedido à castração e, portanto, também ao desejo, o sujeito carece de um
objeto capaz de completá-lo. Fazer o luto do objeto desde sempre perdido é o
preço a ser pago em um processo de análise. Em outras palavras, pagar o preço de se
autorizar do próprio sintoma é o que Lacan chamou de ato ético, que implica atingir e suportar essa falta-a-ser,
consequência de uma análise.
Ao
revelar um conflito interno entre a pulsão do sujeito e seus ideais, a Psicanálise
introduz uma ruptura com o arsenal terapêutico que reduz o sintoma a uma pura
disfunção. Na cultura se está mal, porque existe um
descompasso estrutural entre a palavra e o objeto que buscamos nomear: mal-estar
necessário para que a falta, causa do desejo inconsciente, não venha a faltar.
Referências
[1] BUTLER, S. Erewhon (Nowhere); or Over the Range.
British Library: 2006.
[2] COTTET,
Serge. Efeitos terapêuticos na clínica psicanalítica contemporânea. In: COELHO
DOS SANTOS, Tania. et. al. (Org). Efeitos terapêuticos na psicanálise
aplicada. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2005. Tradução por Vera Avellar
Ribeiro. p. 11- 40.
[3] COTTET,
Serge. A aceleração dos efeitos terapêuticos em psicanálise. In: COELHO DOS
SANTOS, Tania. et. al. (Org). Efeitos terapêuticos na psicanálise
aplicada. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2005. Tradução por Vera Avellar
Ribeiro. p. 41-51.
[4] LACAN, Jacques. (1958). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. Escritos.
Tradução por Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.