Maria Teresa Saraiva
Melloni
Psicanalista –
Escola Lacaniana de Psicanálise-RJ
Professora do
IBMR-Laureate
Mestre em Ciências da Saúde COC/Fiocruz
Há alguns dias estamos
às voltas com a queda de um menino, do quinto andar de um dos mais conceituados
colégios do Brasil.
Polícia, escola,
família, sociedade estão envolvidos em prol do esclarecimento do fato – um
menino de 12 anos, após o término das aulas, numa sexta-feira, caiu do quinto
andar do prédio da escola.
No entanto, o empenho
em esclarecer está na mesma dimensão da obscuridade do fato, ou seja, não se
pode tomar o fato apenas a partir da sua cruel experiência, há que lhe dar um
sentido. Aí onde surge a angústia do não saber, há que se colocar palavras,
nomes, relações lógicas.
Qualquer fato está ligado
a um contexto – dia, hora, local, pessoas envolvidas, depoimentos, enfim...
palavras.
Mas a que serve esse
esclarecimento, para cada uma das partes envolvidas?
O objetivo da polícia
é investigar a possibilidade de participação, intencional ou não, de pessoas ou
instituições , para posterior julgamento. Para a escola, interessa atestar a
isenção e eficiência de seu funcionamento. A imprensa quer vender a melhor e
mais verdadeira notícia. À família, por ser a mais intimamente envolvida, além
da dor da perda, cabe um esclarecimento e uma explicação que respondam ao não
saber sobre o fato. Assim, todos poderiam aplacar as dúvidas e os
questionamentos sobre o seu não saber inconscientes.
O que cabe a nós
psicanalistas?
A prática da
psicanálise, comprometida com a investigação do inconsciente, está baseada na
escuta discursiva. Para nós, a experiência só pode ser abordada como fato de
discurso.
Então, deixando de
lado a participação da imprensa, vamos tomar o que nos foi noticiado, como
efeitos de discurso que esse acontecimento provocou.
A polícia investigou
se houve participação de uma “terceira” pessoa. Como assim, terceira pessoa?
Houve uma segunda? Não, de acordo com o que foi apurado até agora, o menino
agiu sozinho. Apenas dois inspetores registraram os últimos momentos do menino:
“vi o menino, com o corpo pra fora, numa das janelas do quinto andar, e disse:
o que está acontecendo?” Momentos antes da queda, outro inspetor viu o menino
rindo no corredor e disse: “Vai chover”, numa alusão ao fato do menino ser
introvertido.
Aos ouvidos de um
analista, advertido do funcionamento inconsciente, surgem algumas perguntas:
Quando não há ninguém em volta, significa realmente, que estamos sozinhos?
Designar esse lugar
vazio, onde não havia ninguém, por “terceira pessoa”, seria apenas um equívoco
do redator ou, como nos mostrou Freud, significa o lugar do Outro simbólico que
possibilita a intermediação do desejo através da palavra? Ou seja, o ato falho.
E mais, o que
significou para o menino, esse último olhar sobre ele, indagando: “o que está
acontecendo?” Tarde demais, nada mais estava acontecendo, imediatamente, ele se
soltou. Poderia esse menino ter sido interrogado, sobre o que estava
acontecendo, minutos antes, quando ele
jogava bola sozinho? Não causa estranheza que um menino de 12 anos jogue bola,
sozinho? Não tem efeito de diferença o fato de que ele não desça para o recreio
e prefira ficar junto dos inspetores, lendo um livro?
Acreditamos que a
expressão “vai chover” poderia produzir desdobramentos para o caso, se pudesse
ter sido tomada com o seu valor de metáfora, ou seja, qual o destino desse
deslocamento de sentido, para cada sujeito – tanto o inspetor que falou, como
os meninos que escutaram? Como cada um se inclui nesse discurso? Vai chover o
que? Porque não chove?
Mas que nada, não há
tempo, nem na escola, nem em casa, para que as pessoas possam se voltar sobre o
sujeito que fala neles. Há que produzir - estudar, ensinar controlar,
etc...
Não sejamos ingênuos,
levantando suspeitas inocentes de que houve falta de vigilância, nem mesmo de
assistência psicológica?
Lamentamos, mas
diferentemente de alguns colegas, não temos a certeza que, contratando
especialistas e introduzindo tecnologias de vigilância podemos prevenir o Real
do acontecimento. Preferimos perguntar, porque temos que vigiar? O quê, numa
criança de 12 anos, oferece perigo? Ah... o Bulling...
a grande ameaça que, apesar de prática secular, hoje, as crianças levam para
dentro das instituições de ensino.
Quem de nós, não sofreu
o aperto de ser bulinado pelos seus mais próximos amigos, irmãos e outros
familiares? Como um corte de energia, a garganta apertava, a respiração se
interrompia, as pernas bambeavam e as palavras e os pensamentos desapareciam. O
tempo parecia infinito, enquanto isso, tudo parecia congelado, capturado pelo
olhar do Outro. Até que a cena se desfazia, por encanto e aí, tarde demais,
vinham as ideias que não pensamos, as palavras que não foram ditas, as reações
que já não fazem sentido.
Observo na clínica,
que o poder do bulling reside no fato
de que aquele que nos submete é por nós idealizado e que, justo por isso, tem o
poder. Ou seja, os nossos fantasmas. Assim, é o irmão mais velho, o amigo mais
admirado, aquele de quem espero reconhecimento e portanto, me faz sentir
inferior, em falta.
Como diz um menino de
quem me ocupo: “eles zoam de mim, como se soubessem aquilo que eu não quero que
ninguém saiba”.
Mas voltando ao caso
do menino que caiu do quinto andar; antes de cair, ele teve o cuidado de deixar
a mochila, o relógio e os óculos. Se ele estava completamente isolado, pra quem
ele deixou seus pertences?
O que ele queria
deixar, ao deixar suas marcas ao lado da janela, pela qual ele se despediu do
mundo? Para quem se dirigia esse seu último adeus?
A família diz que ele
não tinha depressão, nem tristeza, o colégio afirma que ele vivia isolado; os
colegas dizem que não havia bulling e a policia, mesmo não tendo câmaras
coletoras de imagens, supõe que ele tenha se suicidado; só falta saber por quê,
diz o delegado.
Por outro lado, para
que servem essas reflexões que a experiência com o inconsciente, nos brinda, a
partir de um fato de conhecimento público? Contribuem para que as partes
envolvidas melhor desempenhem suas funções?
Trazem consolo à família? Orientam a escola? Não, não creio que sequer
cheguem a tais ouvidos.
O fato é que o menino
que caiu deixou sua marca cifrada ao lado da janela. Como a assinatura de um
pintor, ele nos deixou perplexos diante do seu quadro.
“O que está
acontecendo aí?” Essa foi a última frase que lhe chegou aos ouvidos.
“O que está
acontecendo que os meninos estão caindo?” Essa é a pergunta que insistimos em
fazer ecoar. Não importa aonde chegou a mensagem, ela sempre chega ao seu
destino, diz Lacan no Seminário sobre a carta roubada.