quinta-feira, 18 de julho de 2013

Apresentação

Marinela Marques Porto
Psicanalista.
Membro da ELP-RJ

O Kultur é um jornal digital em formato de blog, cujo objetivo é fundar um novo espaço de interlocução entre a Escola Lacaniana de Psicanálise - RJ e o público. Pretendemos, com este jornal, publicar textos curtos, que versem sobre temas atuais em sua articulação com a psicanálise. O Jornal Kultur carrega uma particularidade - um convite a que se diga mais - que ganha a forma de um local para comentários aberto ao público. 

Esperamos que, com a inauguração desse novo espaço, possamos instigar discussões que nos permitam trabalhar mais e melhor os temas atuais abordados pelos nossos autores.  

A violência do politicamente correto



Carolina Foglietti
Psicanalista.
Membro da ELP – RJ




Ao longo dos últimos anos o fenômeno cultural do politicamente correto invadiu a vida pública e privada das pessoas, tendo assumido o estatuto de uma nova religião. Estamos vivendo na era dos eufemismos onde o ato de nomear passou a ser meticulosamente cerceado e, dependendo do caso, severamente punido. Uma série de restrições simbólicas, imaginárias e reais, nos foram impostas por parte da própria sociedade, que se quer livre de todo e qualquer preconceito, da maldade e do ódio ao próximo. Trata-se de uma época em que se sonha com um mundo habitado por pessoas completamente tolerantes e isentas de qualquer julgamento... Como se isso fosse possível!
Se, em um primeiro momento, chamar um deficiente físico de “portador de necessidades especiais”, ou um negro de “afro-descente”, pode parecer louvável, por outro, devemos questionar ate que ponto tal atitude não é fruto de um sentimento de culpa inconsciente que, ao mascarar a diferença com rótulos que ressaltam o preconceito e a segregação, satisfazem o desejo de manter a alteridade distante de si.
Basta um olhar mais atento para perceber que por trás dessa áurea de boas intenções, jaz uma profunda intolerância marcada por um narcisismo primário, próprio de sujeitos que se mostram incapazes de lidar com as adversidades da vida. Assim, buscam inutilmente se blindar contra o mal-estar inerente ao laço social impondo a si próprios e aos demais uma visão de mundo maniqueísta, neutralizando a linguagem e causando diversos efeitos nefastos, principalmente às crianças que precisam simbolizar seus conflitos e angústias para constituir sua identidade de forma mais saudável.
Para viver de forma mais desejante e autoral, imprimindo em sua trajetória os traços da própria singularidade, o ser humano precisa elaborar uma tarefa  difícil: dotar a vida em geral de novos sentidos particulares. Para tanto, sabemos que nada é mais importante do que o impacto da família e das pessoas que cuidam da criança, bem como da transmissão da herança cultural. Quando as crianças são pequenas, porém, a literatura mostra ser um dos instrumentos que melhor canaliza esse tipo de informação. Isso porque para lidar melhor com os obstáculos do crescimento – superando decepções narcisistas, dilemas edipianos, rivalidades fraternas, etc., – a criança precisa elaborar o que está se passando em seu eu consciente para que possa enfrentar o que se passa em seu inconsciente.
O fenômeno do politicamente correto, porém, se recusa a permitir que as crianças saibam que a fonte de nossos males e insucessos está na própria “natureza” humana – no pendor de todos os homens a agir de forma agressiva e egoísta, por raiva e angústia. A ditatura, não tão velada, do manto da retidão nutre a ilusão de que todos os homens são bons. Entretanto as crianças sabem que elas não são sempre boas e que, vez ou outra, escolhem, de fato, não sê-lo. Isso contradiz a mensagem politicamente correta, tornando a criança um monstro a seus próprios olhos.
O que mais preocupa nessa cruzada do politicamente correto é a manipulação e a distorção da literatura infantil, que tem a importante função de ajudar as crianças à suportarem, minimamente, a complexidade da vida. É um grande engano supor que, em nome de um "mundo melhor", seria possível retirar do universo infantil o medo, o mal, a insegurança, a ambiguidade de sentimentos pela mesma pessoa, a angústia, etc. Tentar fazer isso é uma maneira cruel de se proteger contra o inevitável, aprofundando a culpa e a violência de nossos filhos.
Uma parcela dominante de nossa cultura deseja fingir, particularmente no que se refere às crianças, que o lado obscuro do homem não existe, e professa a crença num aprimoramento otimista. No entanto, o que a psicanálise nos ensina – e que atestamos tanto em nossas clínicas quanto no social – é que o que não pode ser fantasiado sendo, portanto, recusado no simbólico, retorna no real, dando margem às devastadoras, e por vezes irreversíveis, passagens ao ato: suicídios, homicídios, mutilações, espancamentos, etc.
A criança necessita que lhe sejam oferecidos recursos simbólicos sobre como lidar com situações e sentimentos tão contraditórios e, assim, saber equilibrar de forma mais satisfatória a introjeção da autoridade dos pais com a autonomia necessária para poder se separar deles.
O politicamente correto é uma forma extremamente poderosa de eliminar as diferenças. Quando todos são iguais e não há espaço para a discriminação, isto é, para a separação, a possibilidade de fazer escolhas é aniquilada, bem como o exercício de metabolizar as perdas e assumir as consequências do ato de escolher. Para suportar e tolerar melhor o diferente é preciso que antes possamos escolher o que NÃO desejamos ser. Caso contrário, não estaremos lidando com diferenças, mas apenas com nosso acovardado narcisismo que além de cego é cínico.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Impasses contemporâneos à clínica do mal-estar na cultura



                      Carolina Foglietti
                       Psicanalista. 
Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise - RJ

                                       
                       Essa falta inextirpável, peste que o mundo contemporâneo insiste em querer banir, é o que nos torna humanos, na melhor das hipóteses. Se não inventarmos uma forma de bem dizê-la, advertidos de que esse dizer não nos dirá onde o Bem está, seu inexorável retorno será sempre mais cruel e devastador, revelando a barbárie da des’humanização.


Era uma vez um lugarejo chamado Nowhere, onde a doença e o sofrimento eram considerados graves delitos. Em nome da felicidade e do bem-estar social, nem mesmo o luto, no caso da perda de um ente querido, escapava da punição. Os desafortunados eram afastados da sociedade, à qual só poderiam voltar quando estivessem curados de seus males contagiosos. A um homem acusado de tísica pulmonar, o juiz explica a sentença nos seguintes termos: “O senhor poderá arguir que não é responsável por seu nascimento nem por sua educação. [...] Sua tísica, porém, tenha ou não decorrido de uma falta sua, é uma falta no senhor, sendo meu dever velar para que a república seja protegida de faltas desta natureza” [1].
Descrita em 1872, pelo romancista Samuel Butler, a região do Aqui agora retrata, ainda que de forma burlesca, a paisagem do mundo contemporâneo que, sob a influência do discurso do capitalista cientificizado, elevou a contingência do encontro com a felicidade à condição de ideal supremo. Em Nowhere, tal como se verifica nos dias de hoje, as referências simbólicas, que inscrevem o sujeito numa linhagem histórica relacionada à alteridade e à Lei do pai, são reduzidas ao registro imaginário, narcísico e intrusivo da falta do outro, que deve ser corrigida antes que o pobre desventurado possa voltar a sobreviver no bando da igualdade “feliz”.
Faço esse pequeno preâmbulo a título de gancho para o que me proponho a tratar no presente artigo. Isto é, apontar alguns obstáculos e impasses contemporâneos frente aos quais a Psicanálise deve poder responder, para que a crescente demanda de felicidade, saúde e bem-estar, possa sofrer os efeitos da especificidade de sua ética.
 Vivemos em um mundo cada vez mais acelerado. Atravessados por um sentimento de urgência avassalador, os sujeitos são confrontados diariamente com a exigência de desempenhos insustentáveis. O excesso de competitividade, a obsessão pela saúde perfeita, o culto desmesurado ao sucesso acadêmico, profissional, financeiro e amoroso, acirram a impaciência subjetiva que, diante da falha, clama por rápidas e indolores fórmulas de medicação.
Podemos dizer que, se a modernidade inventou o direito à felicidade, a contemporaneidade, por sua vez, converteu essa prerrogativa numa “felicidade de direito”. Felicidade, saúde e bem-estar são os corolários morais da contemporaneidade. A busca pela felicidade deixou de ser uma questão filosófica, contingente e singular, assumindo o estatuto de uma exigência a ser garantida pelo saber científico e tecnológico. Embora as demandas de saúde e de bem-estar não sejam novas, o que se coloca de forma inédita na atualidade é o lugar ocupado pela prevenção nas políticas públicas e nas práticas da saúde. Um número crescente de aspectos da vida social e particular encontra-se cerceado pela avaliação médica e psicológica. Assim, as práticas que advogam em nome de um Bem supremo, se arvoram do privilégio de poder esclarecer as condições físicas, morais e afetivas que permitiriam alcançar a vida feliz. Os ideais cultuados na atualidade acarretam, portanto, novos e contundentes impasses ao discurso do analista e à ética da Psicanálise.
O discurso científico, cada vez mais diligente em oferecer respostas às incessantes demandas de felicidade e de prazer seguro e imediato, sustenta a credibilidade de uma clínica “monossintomática” que induz a protocolos terapêuticos uniformes e situa os sujeitos em série: hiperativos, anoréxicos, transtornos obsessivos-compulsivos, fóbicos sociais, etc. Em contrapartida, a clínica psicanalítica não se confunde com o “uso de receitas terapêuticas aplicadas a uma zoologia humana. Permanentemente aplicada ao particular, ela lida apenas com as exceções” [2].
No contemporâneo, assistimos também à emergência de uma espécie de clínica do consumo, que se propõe a oferecer tratamentos especializados para modalidades “específicas” de gozo. Regulada por uma sociologia das identificações, ou seja, por determinados tipos de comportamento e práticas sexuais, como, por exemplo, o modo de gozo dos gays, das lésbicas, dos transexuais, etc., além de engendrar uma perniciosa reserva de mercado, contribuindo para a segregação social, essa clínica promove uma profusão de novas identidades efêmeras, que se formam e se dissolvem ao sabor dos investimentos pulsionais.
Paralelamente, surgem práticas de escuta que propõe a reparação do trauma de acordo com a ideologia contemporânea da vítima, “que deve poder falar para adormecer sua dor” [3]. Ainda assim, a premissa fundamental da psicanálise sustenta que há o irreparável, ou seja, aquilo que do sexual não cessa de não se escrever. Com efeito, a situação é mais complexa do que parece. Não basta falar, chorar e se lamentar pelo gozo de seu sintoma, demandando uma solução rápida, sem perdas e sem implicação. Por esta via, o sujeito obterá apenas resultados efêmeros, acompanhados de diagnósticos que, na maioria dos casos, o levarão à apatia da resignação. Como sabemos, é preciso que o sujeito se inclua e se reconheça no sintoma do qual se queixa.
Malgrado as pressões sociais e mercadológicas, a Psicanálise possui o desafio ético de fazer um bom uso da tática sem standards preconizada por Lacan (1958), visando escutar sujeitos ainda distantes do discurso analítico, sem resvalar na obsessão do rendimento terapêutico [4]. Isso porque, além do psicanalista estar advertido de que o sujeito não busca, necessariamente, seu bem, é preciso lembrar que uma psicanálise não visa a remoção do sintoma; pretende, ao contrário, criar as condições de possibilidade para sua transformação. Sabemos que dar a palavra ao sujeito produz alívio em razão da escuta, todavia, o psicanalista pretende fazer mais do que escutar: pretende ouvir e saber do que se trata.
Além disso, é importante enfatizar que a oferta de escuta psicanalítica não exime o sujeito de se confrontar com o impossível de tudo dizer, saber, curar. Por ter acedido à castração e, portanto, também ao desejo, o sujeito carece de um objeto capaz de completá-lo. Fazer o luto do objeto desde sempre perdido é o preço a ser pago em um processo de análise.  Em outras palavras, pagar o preço de se autorizar do próprio sintoma é o que Lacan chamou de ato ético, que implica atingir e suportar essa falta-a-ser, consequência de uma análise.
Ao revelar um conflito interno entre a pulsão do sujeito e seus ideais, a Psicanálise introduz uma ruptura com o arsenal terapêutico que reduz o sintoma a uma pura disfunção. Na cultura se está mal, porque existe um descompasso estrutural entre a palavra e o objeto que buscamos nomear: mal-estar necessário para que a falta, causa do desejo inconsciente,  não venha a faltar.

Referências
[1] BUTLER, S. Erewhon (Nowhere); or Over the Range. British Library: 2006.

[2] COTTET, Serge. Efeitos terapêuticos na clínica psicanalítica contemporânea. In: COELHO DOS SANTOS, Tania. et. al. (Org). Efeitos terapêuticos na psicanálise aplicada. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2005. Tradução por Vera Avellar Ribeiro. p. 11- 40. 

[3] COTTET, Serge. A aceleração dos efeitos terapêuticos em psicanálise. In: COELHO DOS SANTOS, Tania. et. al. (Org). Efeitos terapêuticos na psicanálise aplicada. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2005. Tradução por Vera Avellar Ribeiro. p. 41-51. 

[4] LACAN, Jacques. (1958). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. Escritos. Tradução por Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.



terça-feira, 9 de outubro de 2012

O que queremos para os nossos filhos?


Abílio Luiz Ribeiro Alves
Psicanalista. Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise - RJ 
                      
Essa é uma pergunta que nos fazemos quando nos angustiamos com o futuro e a partir do desamparo que experimentamos como sujeitos. Mais um adolescente morre tão precocemente, seria possível evitar essa tragédia? Isso jamais se saberá. O que não nos exime de refletir sobre as razões que levam um jovem a viver os limites do que é suportável.
Haverá hoje uma educação pautada nos resultados, no desempenho ou na adequação, que subtraia a singularidade de uma existência? Somos o que desejamos ser ou o que devemos apresentar como sucesso? Sim, vivemos numa sociedade altamente competitiva que anula a noção de amizade ou solidariedade. Os treinamentos propostos sob o eufemismo de “recursos humanos” são na verdade maneiras de estimular fórmulas de sucesso pessoal que estão longe de levar em conta a diferença e a criatividade.
A criatividade e a emergência de uma diferença são possibilidades pensadas por Freud como alternativas à sonhada felicidade. Se não podemos ser felizes integralmente ou definitivamente, talvez possamos experimentar uma pequena margem de liberdade, quem sabe a de um desejo próprio e singular? O remédio de Freud contra a neurose não era a felicidade, mas o humor e a criatividade. Ele era cético quanto a um estado duradouro da tal felicidade.
JP era um aluno do São Bento como eu fui. Um colégio rigoroso quanto à disciplina e quanto ao desempenho de cada aluno. Eu reconheço todos os benefícios que a formação nesta instituição de ensino me proporcionou. Lembro com muito carinho de colegas e professores. Porém, é um colégio cujo ensino, em pleno século XXI, está restrito aos meninos. Talvez uma questão para ser levantada. Se algumas meninas frequentassem o cotidiano de JP, se ele tivesse um convívio com o jeito feminino de ser, será que alguma coisa pudesse se dar de outra maneira? Talvez sim, talvez não. Mas é um fato, o de que, nos dias de hoje, um homem não só se encontre com o sexo oposto no santo altar. As mulheres estão na cena do mundo e não mais restritas ao lar. Esta é uma das questões particulares desse colégio que frequentei e tenho saudades.
Há hoje um ranking de escolas, o São Bento, tanto quanto algumas outras, é sempre destaque. Eu conheci Homero, Sófocles, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade nesse colégio. Minha querida e inesquecível professora Dona Amélia recitava em lágrimas versos de Drummond. Eu não estudava para o vestibular, estudava para ser gente.
Contudo, há outro aspecto polêmico: os dogmas religiosos. Devo dizer que os valores cristãos influenciaram minha educação e o meu pensamento. Não digo o mesmo da Igreja Católica Apostólica Romana e, muito menos, da Igreja Evangélica cuja institucionalização do cristianismo, suas práticas e discursos me despertam muitas críticas e restrições. Mas, Lacan adiantou que a religião triunfará sobre a ciência. Vou aqui parafraseá-lo quando fala das psicoterapias: “Não é que não ajude, é que leva ao pior”.
Fazer o bem acima de tudo é o que há de pior, pois Freud nos fala do impossível desse mandamento. “Quero o teu bem à imagem do meu”. É isso que queremos para os nossos filhos, que eles sejam aquilo que não fomos. Em outras palavras, desejamos para nossos filhos os nossos fracassos, o que não conquistamos.
Não preparamos nossos filhos para serem sujeitos de um mundo que nos transcenda, queremos que eles realizem nossas frustrações. Pais que somos no desamparo de nossa existência errante, descontínua e faltosa. “Senhor, tende piedade de nós”. Seres que dormem sonos perturbados, enquanto as crianças de nossos sonhos se perdem no desafio de sobreviver neste mundo cão, neste mundo do sucesso material e do sacrifício da diferença_ de uma maneira própria de existir.
O que queremos para os nossos filhos quando os matriculamos numa escola não para aprenderem o novo, a novidade, mas para serem números de uma estatística bem sucedida? “O Colégio PhD....(Sei lá o que?) obteve 90% de aprovação no Vestibular”.  É isso que realmente importa? Isso garantirá o futuro de seu filho? Vamos abrir os olhos, pois crianças e adolescentes caem da janela de seus próprios sonhos e fantasias.
Responsabilidade, empenho e estudo são elementos necessários para alcançar metas, objetivos e etc. Alguns conseguem mais, outros nem tanto. O potencial humano não se mede pela quantidade, mas se apresenta na forma particular como cada um lida com seus limites e dificuldades. O mercado é competitivo, mas não podemos negligenciar valores como respeito e tolerância.
JP se foi precocemente. Poderia ser o meu filho, o seu filho. Poderia estudar em diversas escolas desse mundo altamente competitivo que não quer saber da diferença. Quem sabe haverá um Blade Runner quando nos tornarmos máquinas rebeldes e incapazes de amar?

           

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Os jovens estão caindo...



Maria Teresa Saraiva Melloni
Psicanalista – Escola Lacaniana de Psicanálise-RJ
Professora do IBMR-Laureate
Mestre em Ciências da Saúde COC/Fiocruz



Há alguns dias estamos às voltas com a queda de um menino, do quinto andar de um dos mais conceituados colégios do Brasil.
Polícia, escola, família, sociedade estão envolvidos em prol do esclarecimento do fato – um menino de 12 anos, após o término das aulas, numa sexta-feira, caiu do quinto andar do prédio da escola.
No entanto, o empenho em esclarecer está na mesma dimensão da obscuridade do fato, ou seja, não se pode tomar o fato apenas a partir da sua cruel experiência, há que lhe dar um sentido. Aí onde surge a angústia do não saber, há que se colocar palavras, nomes, relações lógicas.
Qualquer fato está ligado a um contexto – dia, hora, local, pessoas envolvidas, depoimentos, enfim... palavras.
Mas a que serve esse esclarecimento, para cada uma das partes envolvidas?
O objetivo da polícia é investigar a possibilidade de participação, intencional ou não, de pessoas ou instituições , para posterior julgamento. Para a escola, interessa atestar a isenção e eficiência de seu funcionamento. A imprensa quer vender a melhor e mais verdadeira notícia. À família, por ser a mais intimamente envolvida, além da dor da perda, cabe um esclarecimento e uma explicação que respondam ao não saber sobre o fato. Assim, todos poderiam aplacar as dúvidas e os questionamentos sobre o seu não saber inconscientes.
O que cabe a nós psicanalistas?
A prática da psicanálise, comprometida com a investigação do inconsciente, está baseada na escuta discursiva. Para nós, a experiência só pode ser abordada como fato de discurso.
Então, deixando de lado a participação da imprensa, vamos tomar o que nos foi noticiado, como efeitos de discurso que esse acontecimento provocou.
A polícia investigou se houve participação de uma “terceira” pessoa. Como assim, terceira pessoa? Houve uma segunda? Não, de acordo com o que foi apurado até agora, o menino agiu sozinho. Apenas dois inspetores registraram os últimos momentos do menino: “vi o menino, com o corpo pra fora, numa das janelas do quinto andar, e disse: o que está acontecendo?” Momentos antes da queda, outro inspetor viu o menino rindo no corredor e disse: “Vai chover”, numa alusão ao fato do menino ser introvertido.
Aos ouvidos de um analista, advertido do funcionamento inconsciente, surgem algumas perguntas: Quando não há ninguém em volta, significa realmente, que estamos sozinhos?
Designar esse lugar vazio, onde não havia ninguém, por “terceira pessoa”, seria apenas um equívoco do redator ou, como nos mostrou Freud, significa o lugar do Outro simbólico que possibilita a intermediação do desejo através da palavra? Ou seja, o ato falho.
E mais, o que significou para o menino, esse último olhar sobre ele, indagando: “o que está acontecendo?” Tarde demais, nada mais estava acontecendo, imediatamente, ele se soltou. Poderia esse menino ter sido interrogado, sobre o que estava acontecendo,  minutos antes, quando ele jogava bola sozinho? Não causa estranheza que um menino de 12 anos jogue bola, sozinho? Não tem efeito de diferença o fato de que ele não desça para o recreio e prefira ficar junto dos inspetores, lendo um livro?
Acreditamos que a expressão “vai chover” poderia produzir desdobramentos para o caso, se pudesse ter sido tomada com o seu valor de metáfora, ou seja, qual o destino desse deslocamento de sentido, para cada sujeito – tanto o inspetor que falou, como os meninos que escutaram? Como cada um se inclui nesse discurso? Vai chover o que? Porque não chove?
Mas que nada, não há tempo, nem na escola, nem em casa, para que as pessoas possam se voltar sobre o sujeito que fala neles. Há que produzir - estudar, ensinar controlar, etc...  
Não sejamos ingênuos, levantando suspeitas inocentes de que houve falta de vigilância, nem mesmo de assistência psicológica?
Lamentamos, mas diferentemente de alguns colegas, não temos a certeza que, contratando especialistas e introduzindo tecnologias de vigilância podemos prevenir o Real do acontecimento. Preferimos perguntar, porque temos que vigiar? O quê, numa criança de 12 anos, oferece perigo? Ah... o Bulling... a grande ameaça que, apesar de prática secular, hoje, as crianças levam para dentro das instituições de ensino.
Quem de nós, não sofreu o aperto de ser bulinado pelos seus mais próximos amigos, irmãos e outros familiares? Como um corte de energia, a garganta apertava, a respiração se interrompia, as pernas bambeavam e as palavras e os pensamentos desapareciam. O tempo parecia infinito, enquanto isso, tudo parecia congelado, capturado pelo olhar do Outro. Até que a cena se desfazia, por encanto e aí, tarde demais, vinham as ideias que não pensamos, as palavras que não foram ditas, as reações que já não fazem sentido.
Observo na clínica, que o poder do bulling reside no fato de que aquele que nos submete é por nós idealizado e que, justo por isso, tem o poder. Ou seja, os nossos fantasmas. Assim, é o irmão mais velho, o amigo mais admirado, aquele de quem espero reconhecimento e portanto, me faz sentir inferior, em falta.
Como diz um menino de quem me ocupo: “eles zoam de mim, como se soubessem aquilo que eu não quero que ninguém saiba”.
Mas voltando ao caso do menino que caiu do quinto andar; antes de cair, ele teve o cuidado de deixar a mochila, o relógio e os óculos. Se ele estava completamente isolado, pra quem ele deixou seus pertences?
O que ele queria deixar, ao deixar suas marcas ao lado da janela, pela qual ele se despediu do mundo? Para quem se dirigia esse seu último adeus?     
A família diz que ele não tinha depressão, nem tristeza, o colégio afirma que ele vivia isolado; os colegas dizem que não havia bulling e a policia, mesmo não tendo câmaras coletoras de imagens, supõe que ele tenha se suicidado; só falta saber por quê, diz o delegado.
Por outro lado, para que servem essas reflexões que a experiência com o inconsciente, nos brinda, a partir de um fato de conhecimento público? Contribuem para que as partes envolvidas melhor desempenhem suas funções?  Trazem consolo à família? Orientam a escola? Não, não creio que sequer cheguem a tais ouvidos.
O fato é que o menino que caiu deixou sua marca cifrada ao lado da janela. Como a assinatura de um pintor, ele nos deixou perplexos diante do seu quadro.
“O que está acontecendo aí?” Essa foi a última frase que lhe chegou aos ouvidos.
“O que está acontecendo que os meninos estão caindo?” Essa é a pergunta que insistimos em fazer ecoar. Não importa aonde chegou a mensagem, ela sempre chega ao seu destino, diz Lacan no Seminário sobre a carta roubada[1].



[1]Escritos, Zahar, Rio de Janeiro: 1998.