terça-feira, 31 de julho de 2012

“Salecia, seis anos, presa e algemada pela polícia” [1]


Marinela Marques Porto Couri

Hoje pela manhã, enquanto lia notícias do jornal, me deparei com um pequeno artigo que questionava os chamados “excessos” nos Estados Unidos.  Trata-se de um episódio que produziu repercussões na mídia internacional, quando uma escola recorreu à polícia para poder conter uma aluna de jardim de infância durante um excesso de fúria.
            Pergunto-me sobre os excessos. O que está em jogo nessa cena, quando exceder os limites se faz necessário para que algo na sociedade seja questionado? Seria a ultrapassagem dos limites justamente uma maneira de fazê-los presentes? Não penso aqui em limites legais ou morais. Evoco aqueles limites que marcam um ponto de basta e que podem levar o sujeito a alguma elaboração.
            Que apelo faz a escola quando precisa fazer valer a lei num sentido tão concreto?  Que apelo faz a menina, que chega a jogar uma prateleira no diretor da escola? Não se trata de julgar as ações de um ou de outro, mas de procurar escutar, nessa cena, aquilo que evidentemente não pôde ser ouvido por aqueles a quem as atuações foram endereçadas.  Qual era a contenção que a escola e a pequena Salecia Johnson pediam e que só pôde se materializar na contenção real dos pulsos algemados?
            “As crianças estão sendo presas por serem crianças”, diz a advogada Shannon Kennedy. Mas será? Será mesmo que ser criança implica um passe livre para fazer o que quer que seja sob a tutela de um adulto que “sabe mais, sabe melhor”?  Ou são essas mesmas crianças as próprias presas de um conceito de liberdade que subtrai o sujeito das consequências de seus atos?
            Precisamos escutar o sujeito em seu grito de dor; grito esse que carece de palavras, mas que veicula um dizer, uma verdade. É preciso escutá-lo de outra maneira, enquanto nesse grito ainda há um pedido... Antes que a cena se repita, como já vimos tantas vezes, com um desfecho trágico.

19/04/2012


[1] Título da matéria publicada no Jornal O Globo em 19 de abril de 2012.