Marinela Marques Porto Couri
Hoje
pela manhã, enquanto lia notícias do jornal, me deparei com um pequeno artigo
que questionava os chamados “excessos” nos Estados Unidos. Trata-se de um episódio que produziu
repercussões na mídia internacional, quando uma escola recorreu à polícia para
poder conter uma aluna de jardim de infância durante um excesso de fúria.
Pergunto-me sobre os excessos. O que
está em jogo nessa cena, quando exceder os limites se faz necessário para que
algo na sociedade seja questionado? Seria a ultrapassagem dos limites
justamente uma maneira de fazê-los presentes? Não penso aqui em limites legais
ou morais. Evoco aqueles limites que marcam um ponto de basta e que podem levar o sujeito a alguma elaboração.
Que apelo faz a escola quando precisa
fazer valer a lei num sentido tão concreto?
Que apelo faz a menina, que chega a jogar uma prateleira no diretor da
escola? Não se trata de julgar as ações de um ou de outro, mas de procurar
escutar, nessa cena, aquilo que evidentemente não pôde ser ouvido por aqueles a
quem as atuações foram endereçadas. Qual
era a contenção que a escola e a
pequena Salecia Johnson pediam e que só pôde se materializar na contenção real
dos pulsos algemados?
“As crianças estão sendo presas por
serem crianças”, diz a advogada Shannon Kennedy. Mas será? Será mesmo que ser
criança implica um passe livre para fazer o que quer que seja sob a tutela de
um adulto que “sabe mais, sabe melhor”?
Ou são essas mesmas crianças as próprias presas de um conceito de liberdade que subtrai o sujeito das
consequências de seus atos?
Precisamos escutar o sujeito em seu
grito de dor; grito esse que carece de palavras, mas que veicula um dizer, uma
verdade. É preciso escutá-lo de outra maneira, enquanto nesse grito ainda há um
pedido... Antes que a cena se repita, como já vimos tantas vezes, com um
desfecho trágico.
19/04/2012
[1] Título da matéria publicada no
Jornal O Globo em 19 de abril de 2012.