Psicanalista.
Membro da ELP – RJ
Ao longo dos
últimos anos o fenômeno cultural do politicamente correto invadiu a vida
pública e privada das pessoas, tendo assumido o estatuto de uma nova religião.
Estamos vivendo na era dos eufemismos onde o ato de nomear passou a ser meticulosamente
cerceado e, dependendo do caso, severamente punido. Uma série de restrições
simbólicas, imaginárias e reais, nos foram impostas por parte da própria
sociedade, que se quer livre de todo e qualquer preconceito, da maldade e do
ódio ao próximo. Trata-se de uma época em que se sonha com um mundo habitado
por pessoas completamente tolerantes e isentas de qualquer julgamento... Como
se isso fosse possível!
Se, em um
primeiro momento, chamar um deficiente físico de “portador de necessidades
especiais”, ou um negro de “afro-descente”, pode parecer louvável, por outro,
devemos questionar ate que ponto tal atitude não é fruto de um sentimento de
culpa inconsciente que, ao mascarar a diferença com rótulos que ressaltam o
preconceito e a segregação, satisfazem o desejo de manter a alteridade distante
de si.
Basta um
olhar mais atento para perceber que por trás dessa áurea de boas intenções, jaz
uma profunda intolerância marcada por um narcisismo primário, próprio de
sujeitos que se mostram incapazes de lidar com as adversidades da vida. Assim,
buscam inutilmente se blindar contra o mal-estar inerente ao laço social impondo
a si próprios e aos demais uma visão de mundo maniqueísta, neutralizando a
linguagem e causando diversos efeitos nefastos, principalmente às crianças que
precisam simbolizar seus conflitos e angústias para constituir sua identidade
de forma mais saudável.
Para viver
de forma mais desejante e autoral, imprimindo em sua trajetória os traços da
própria singularidade, o ser humano precisa elaborar uma tarefa difícil: dotar a vida em geral de novos
sentidos particulares. Para tanto, sabemos que nada é mais importante do que o
impacto da família e das pessoas que cuidam da criança, bem como da transmissão
da herança cultural. Quando as crianças são pequenas, porém, a literatura
mostra ser um dos instrumentos que melhor canaliza esse tipo de informação.
Isso porque para lidar melhor com os obstáculos do crescimento – superando
decepções narcisistas, dilemas edipianos, rivalidades fraternas, etc., – a
criança precisa elaborar o que está se passando em seu eu consciente para que
possa enfrentar o que se passa em seu inconsciente.
O fenômeno
do politicamente correto, porém, se recusa a permitir que as crianças saibam
que a fonte de nossos males e insucessos está na própria “natureza” humana – no
pendor de todos os homens a agir de forma agressiva e egoísta, por raiva e
angústia. A ditatura, não tão velada, do manto da retidão nutre a ilusão de que
todos os homens são bons. Entretanto as crianças sabem que elas não são sempre
boas e que, vez ou outra, escolhem, de fato, não sê-lo. Isso contradiz a
mensagem politicamente correta, tornando a criança um monstro a seus próprios
olhos.
O que mais
preocupa nessa cruzada do politicamente correto é a manipulação e a distorção
da literatura infantil, que tem a importante função de ajudar as crianças à
suportarem, minimamente, a complexidade da vida. É um grande engano supor que,
em nome de um "mundo melhor", seria possível retirar do universo
infantil o medo, o mal, a insegurança, a ambiguidade de sentimentos pela mesma
pessoa, a angústia, etc. Tentar fazer isso é uma maneira cruel de se proteger
contra o inevitável, aprofundando a culpa e a violência de nossos filhos.
Uma parcela
dominante de nossa cultura deseja fingir, particularmente no que se refere às
crianças, que o lado obscuro do homem não existe, e professa a crença num
aprimoramento otimista. No entanto, o que a psicanálise nos ensina – e que
atestamos tanto em nossas clínicas quanto no social – é que o que não pode ser
fantasiado sendo, portanto, recusado no simbólico, retorna no real, dando
margem às devastadoras, e por vezes irreversíveis, passagens ao ato: suicídios,
homicídios, mutilações, espancamentos, etc.
A criança necessita
que lhe sejam oferecidos recursos simbólicos sobre como lidar com situações e
sentimentos tão contraditórios e, assim, saber equilibrar de forma mais
satisfatória a introjeção da autoridade dos pais com a autonomia necessária
para poder se separar deles.
O politicamente
correto é uma forma extremamente poderosa de eliminar as diferenças. Quando
todos são iguais e não há espaço para a discriminação, isto é, para a
separação, a possibilidade de fazer escolhas é aniquilada, bem como o exercício
de metabolizar as perdas e assumir as consequências do ato de escolher. Para
suportar e tolerar melhor o diferente é preciso que antes possamos escolher o
que NÃO desejamos ser. Caso contrário, não estaremos lidando com diferenças,
mas apenas com nosso acovardado narcisismo que além de cego é cínico.